Jeffrey Sachs diz que EUA e Israel subestimaram o Irã e alerta para risco de crise global
Economista afirma que ofensiva militar pode provocar catástrofe econômica, ampliar conflitos e empurrar o mundo para uma guerra de grandes proporções
247 - O economista e professor da Universidade de Columbia Jeffrey Sachs afirmou que os Estados Unidos e Israel cometeram um grave erro estratégico ao subestimar o Irã no atual conflito no Oriente Médio. Em entrevista ao canal internacional CGTN, Sachs avaliou que a ofensiva militar liderada por Washington e Tel Aviv contra o país persa está mergulhando o mundo em uma crise geopolítica e econômica de grandes proporções.
Segundo Sachs, o conflito atual não surgiu de uma tentativa frustrada de negociação, mas de ataques militares sucessivos contra o Irã. “Irã tentou negociar duas vezes. Nas duas vezes foi bombardeado por Israel e pelos Estados Unidos”, disse o economista. Ele acrescentou que o país enfrenta uma ofensiva extremamente agressiva: “O Irã está sob um ataque absolutamente brutal. Está sob bombardeio maciço. Os Estados Unidos e Israel estão destruindo infraestrutura, assassinaram o pai desse homem e líderes do governo iraniano. Estão matando milhares de pessoas.”
Conflito pode escalar para uma guerra global
Sachs alertou que o conflito pode desencadear uma escalada internacional. Para ele, a situação atual pode levar o mundo a um cenário ainda mais grave. “Isso é um desastre para os Estados Unidos. É um desastre para o mundo inteiro. Os Estados Unidos e Israel jogaram o mundo inteiro em turbulência, talvez em uma guerra mundial.”
O economista também criticou o posicionamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que declarou vitória no conflito. Para Sachs, essa narrativa não corresponde à realidade. “Trump diz coisas para o momento imediato, para espetáculo ou porque acredita nelas. Nunca sabemos exatamente qual é o caso”, afirmou.
Ele acrescentou que não existe um caminho claro para uma vitória militar americana. “Isso foi um movimento violento e extremamente mal pensado desses dois países, e agora todos estamos sofrendo as consequências.”
Crise energética e impacto devastador na economia global
Outro ponto destacado por Sachs foi o impacto da guerra na economia mundial. O fechamento parcial do estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para transporte de petróleo e gás, já estaria provocando forte instabilidade energética.
Ele citou alertas da Agência Internacional de Energia sobre a gravidade da situação. “Estamos vendo interrupções massivas no fornecimento de petróleo. Apenas alguns navios-tanque estão passando pelo estreito de Ormuz, aqueles que o Irã permite passar, como para a China e, segundo relatos, para a Índia.”
Segundo o economista, a história mostra que choques no fornecimento de energia têm consequências rápidas e profundas. “A história mostrou, especialmente nos anos 1970, quando houve duas grandes interrupções no fornecimento de petróleo, que as consequências para a economia mundial são extremamente severas e chegam rapidamente.”
Ele concluiu que a continuidade do conflito pode desencadear uma crise econômica global. “Estamos caminhando para uma crise global muito, muito significativa.”
Estratégia iraniana e caráter existencial da guerra
Sachs também analisou a estratégia militar adotada por Teerã, classificada por analistas como uma resposta assimétrica. O Irã tem atacado aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, especialmente países que abrigam bases militares americanas.
Para o economista, essa estratégia está ligada à percepção iraniana de ameaça existencial. “O que o Irã está dizendo é: estamos sob ataque. Isso é existencial.” Ele lembrou que a rivalidade entre Washington e Teerã tem raízes profundas. “Podemos voltar a 1953, quando os Estados Unidos derrubaram um primeiro-ministro democraticamente eleito no Irã e instalaram um Estado policial por décadas.”
Sachs também mencionou outros episódios de hostilidade, como a guerra Irã-Iraque nos anos 1980, apoiada por Washington, além de assassinatos atribuídos ao Mossad e à CIA.
Críticas à estratégia militar de Washington
O professor afirmou que os Estados Unidos historicamente subestimam seus adversários em conflitos militares. “Durante toda a minha vida, os Estados Unidos subestimaram seus adversários, desde o Vietnã.”
Ele acrescentou que a estratégia adotada contra o Irã seguiu a mesma lógica equivocada. “Eles disseram que seria um ataque de decapitação e que as pessoas sairiam às ruas contra o regime e Trump escolheria um novo líder. Isso é um mundo de fantasia.”
Segundo Sachs, essa visão reflete uma cultura política marcada por confiança excessiva no poder militar. “Os líderes americanos estão tão embriagados com o poder militar que julgam completamente mal o resto do mundo.”
Mortes de civis e críticas à doutrina militar de Israel
Durante a entrevista, Sachs também comentou o alto número de vítimas civis no conflito. Mais de 1.500 iranianos teriam sido mortos até o momento, incluindo crianças. O economista criticou duramente as operações militares israelenses.
“Israel cometeu um genocídio em Gaza”, afirmou Sachs, acrescentando que a doutrina militar do país não distingue adequadamente entre civis e alvos militares. “Eles matam em grande número, matam civis, mulheres e crianças.”
Ele afirmou que a mesma lógica estaria sendo aplicada em outras frentes militares, incluindo Líbano e Irã.
Possibilidade de invasão terrestre e oposição interna nos EUA
Apesar das ameaças de Donald Trump sobre uma possível invasão terrestre do Irã, Sachs considera improvável que isso aconteça. Para ele, a reação da opinião pública americana seria devastadora. “O povo americano está completamente contra o que Donald Trump está fazendo”, disse.
Ele acrescentou que uma guerra terrestre teria enormes custos políticos e econômicos. “Se os preços da gasolina subirem, os salários caírem e os empregos desaparecerem, a oposição crescerá ainda mais.”
Guerra prolongada no Oriente Médio
Sachs também conectou o conflito atual a uma estratégia geopolítica mais ampla. Segundo ele, desde os anos 1990 existe um projeto político para redesenhar o Oriente Médio.
Ele mencionou um plano conhecido como “clean break”, associado ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que teria como objetivo enfraquecer governos que apoiam a causa palestina. “É por isso que existem tantas guerras: Líbia, Sudão, Somália, Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e agora Irã”, afirmou.
Para Sachs, a solução duradoura para a região continua sendo o cumprimento do direito internacional, com a criação de um Estado palestino ao lado de Israel. “Em vez de simplesmente ter um Estado palestino ao lado de Israel, de acordo com o direito internacional, temos guerras em todo o Oriente Médio há 30 anos.”


